Por um lugar epistemológico para a Educação

Não há o conhecimento como um todo disponível aos interessados. Há um estado da arte em que se pode acessar o compêndio de informações legitimadas sobre nossa “realidade”. E é sobre esse compêndio que se institui a autoridade quanto ao que se pensa e o que se diz a respeito dos objetos e dos fenômenos que nos “cercam”; é em torno dele que gira o processo educacional. Interessante, porque propõe uma finalidade para a Educação e determina como organizá-la.

Uma ilustração: nas últimas cinco décadas o sistema educacional brasileiro tratou de organizar, entre muitas outras coisas, as áreas do conhecimento humano, entendidas como fundamentais para o desenvolvimento acadêmico-científico. Um compêndio de leis, pareceres e resoluções tratou de dar existência e normatizar o sentido para essas áreas. A Filosofia, por exemplo, ganhou um lugar dentro das Ciências Humanas. Uma contradição, na medida em que sem a primeira não existiria a segunda.

Vamos separar, então, o compêndio sobre o pensamento filosófico (para ser redundante) e a Filosofia. Dentro das Ciências Humanas temos um compêndio de informações sobre as referências que permitem estudar a Filosofia e (re)conhecer as escolhas que legitimam o que deve ser cultuado sobre o rico e inesgotável pensamento humano. Portanto, o máximo que as Ciências Humanas podem oferecer à Filosofia é dar ciência ao que se tem catalogado sobre as abstrações e, porquê não, as aplicações institucionalizadas das referências a ela.

Dentro das Ciências Humanas a Filosofia está pedagogizada, higienizada enquanto referência a respeito de seu confinamento. É como se o pensamento filosófico só fosse possível dentro de sua própria ciência; uma evidente forma de domesticá-lo. Não há possíveis disponíveis senão dentro do compêndio existente sobre o pensamento filosófico. Portanto, a Filosofia é para filósofos, para eleitos institucionalizados como representantes de sua ciência; cânones imortalizados por aquilo que evitaram ao longo de sua existência: domesticar as ideias pela linguagem erudita e dogmatizar os dizeres ensimesmados de um olhar sobre o mundo.

Sugata Mitra e suas experiências com aprendizagem sem professor, usando ferramentas modernasem lugares pouco ortodoxos para o investimento em tecnologias de ponta.

Mas voltemos à Educação, ela própria uma área das Ciências Humanas. Assim como a Filosofia, ela se concebe num confinamento. Mas é preciso reconhecer uma perversidade maior nessa relação. Isso porque o compêndio referente à Educação tem um caráter explicitamente aplicado. Enquanto área ela não está pedagogizada, higienizada; ela é a pedagogia e a razão de higiene. Não vamos aqui perder tempo com tentativas de “desdizer” equívocos interpretativos a respeito do que este texto propõe. Vamos eliminar o tal didatismo responsável pela domesticação dos sentidos e pela homogeinização das contradições.

Só dentro das Ciências Humanas a Educação se concebe, dizem as referências sobre o conhecimento a seu respeito. É, portanto, necessário conhecê-la para que alguém possa legitimar-se como educador. É preciso aprender a educar dentro de sua própria ciência e, portanto, domesticar-se quanto às suas finalidades e processos. A Educação tem hoje um lugar na epistemologia mas está longe de ser um lugar epistemológico. Falta-lhe o propósito, aquilo que a constitui.

O lugar destinado à Educação no catálogo das epistemes é resultado de seus “objetos e métodos”, dos conhecimentos interrelacionados e coletivamente construídos para fins de ensino, de pesquisa e de aplicações práticas. Pelo menos é o que dizem os documentos que justificam a classificação. Seu confinamento, portanto, não é por acaso. Não há um propósito para a Educação neste contexto; há para seu enquadramento. O espaço em que este lugar se inscreve é o das práticas da razão instrumentalizada para o fazer científico, delimitado pela tecnocracia e pelos repositórios de informação legitimada a seu respeito.

Bunker Roy e seu college dos pés-descalços, um espaço de aprendizagem pautado pela negociação dos saberes e pela organização com base nos interesses coletivos da vida em sociedade.

Para ser um lugar epistemológico a Educação precisa romper os limites das Ciências Humanas. Ela deve estimular a negociação de seus processos e admitir múltiplas finalidades a si mesma. É num espaço de aprendizagem socializado em razão dos laços afetivos, das memórias compartilhadas, do reconhecimento do Outro pela solidariedade ao diferente, da livre circulação de diferentes saberes que a Educação deve se (re)conhecer. E sua ciência também cabe neste contexto, claro! Não como determinante, mas como um possível disponível enquanto referência.

Num espaço de aprendizagem não há professores e alunos, ou melhor, todos o são; não há requisitos prévios para a busca de soluções; não há arbitrariedade quanto às escolhas do que deve ser aprendido. Reconheçamos, nosso sistema atual não concebe essa despedagogização porque legitima a Educação apenas enquanto ciência humana. Disso depende toda a lógica de organização dos saberes escolares, do tempo pedagógico pautado numa cronologia e na chancela do que deve ser aprendido; disso depende a capacitação dos educadores, cuja finalidade principal parece a de atender aos padrões de resposta esperados para os pseudoproblemas que levantamos.

A Educação não pode ser vista como meio para acesso ao conhecimento. Primeiro porque não há o conhecimento a ser acessado. A relação entre ambos se dá pelos possíveis disponíveis quanto às finalidades envolvidas, os propósitos acordados. E, depois, o compromisso de conduzir os processos de aprendizagem não está em quem detém o poder de decisão sobre o estado da arte a ser adotado, tampouco nos territórios delimitados pela apropriação autoral de certos pensamentos. O potencial de formação depende de um lugar epistemológico inscrito em espaços delimitados pelo (re)conhecimento de seus possíveis disponíveis e não pela disponibilidade de acesso ao conhecimento eleito arbitrariamente como única alternativa.

Sobre o Intercom Sul 2014 (3)

A estudante Thaís Teixeira entrevistou também a professora Christa Berger e o jornalista Fernando Evangelista sobre questões tratadas no Intercom Sul 2014, realizado na Universidade do Sul de Santa Catarina entre 8 e 10 de maio. Interessantes pontos de vista sobre temáticas que temos tratado aqui.

1) O que significaram as grandes manifestações de junho e julho de 2013 para o País?

Christa Berger – Penso que as manifestações iniciadas em 2013 expressam um profundo descontentamento com a organização da vida nas cidades e, ao mesmo tempo, um esgotamento das formas tradicionais de reinvindicação e luta. Elas repudiaram o que está na superfície da sociedade e o que é estrutural e contaram com as redes sociais para inventar a nova modalidade de chamamento do “vem prá rua”. Portanto, as manifestações de junho deram um susto nos sujeitos que dirigem o país, nos que fazem política e nos proprietários dos meios de comunicação e nos jornalistas.

Fernando Evangelista – O economista Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, disse que o Brasil deveria se chamar Belíndia. Segundo ele, uma grande parte da população vive em condições muito pobres, como os pobres da Índia, e uma pequena parcela vive como os ricos da Bélgica. Bacha falou isso há décadas e a situação, apesar de algumas melhoras pontuais, continua quase igual: Temos o sexto maior PIB do planeta e, ao mesmo tempo, somos o quarto país mais desigual do mundo. Como isso se explica? Então, respondo a tua pergunta com outra pergunta: qual país? De que Brasil estamos falando? Para a parte da população que nunca é ouvida, considero as manifestações de 2013 um passo importante no processo de amadurecimento democrático. É fundamental que as pessoas, principalmente aquelas que não têm outros espaços para exercer pressão política, saiam às ruas e digam que existem, que estão ali, que não estão de acordo. Os avanços sociais acontecem, ou deveriam acontecer, com pressão popular. Esta é uma das bases da democracia. Então, acredito que os protestos são um recado importante das ruas para os governos que continuam acreditando na paciência infinita da população. Talvez esta paciência esteja menor e isso me parece positivo.

Como você analisa o contexto político-social em que essas manifestações eclodiram e quais as principais consequências desses protestos?

Christa Berger –  A análise sobre o contexto deve considerar os avanços sociais que o PT trouxe ao país. Políticas públicas de inclusão foram implantadas, mas insuficientes frente às exclusões históricas. O desenvolvimento da tecnologia e seu potencial mobilizador, bem como a circulação de noticias das manifestações em outras partes do mundo, formam o “espírito contestador do século XXI”. Considero como um componente importante desse contexto o lugar conquistado pela cultura da periferia e são estes sujeitos que estão transformando o cenário politico contemporâneo. Consequências? Ainda é cedo para avaliar. O que podemos aventar, por ora, é que as intervivências políticas nas ruas tem potencial transformador, só não sabemos a natureza das transformações em curso.

Fernando Evangelista – O estopim das últimas manifestações foi a luta do Movimento Passe Livre em São Paulo. E quanto mais crescia a violência policial, mais o protesto ganhava visibilidade e apoio da população. É interessante observar que a semente dessas atuais manifestações contra o aumento da passagem foi lançada em Salvador em 2003, no episódio conhecido como a “Revolta do Buzú”, e na “Revolta da Catraca” em Florianópolis em 2004, que impulsionaram a criação do Movimento Passe Livre (MPL) no Fórum Social Mundial de 2005. Hoje, a bandeira do movimento é a Tarifa Zero, política pública idealizada pelo engenheiro Lúcio Gregori, ex-secretário de Transportes da cidade de São Paulo, na administração de Luiza Erundina. Nessa proposta, o transporte coletivo não seria pago por meio da tarifa, mas bancado por outras formas de arrecadação. Essas manifestações serviram para várias coisas, entre elas: explicitaram os problemas do transporte; evidenciaram o despreparo das forças policiais e a incompetência dos governos que continuam fazendo uma política encanecida; colocaram em xeque a mídia tradicional e o papel do jornalista – com as novas tecnologias, qualquer um, a qualquer momento, pode ser agente da informação. Além disso, o Movimento Passe Livre faz uma política diferente, sem lideranças fixas, sem estatutos e sem esquecer o humor. As decisões são tomadas em grandes assembleias ao ar livre, no meio da rua, de forma horizontal e espontânea. A polícia e os políticos não sabem como lidar com esse tipo de organização popular. A luta do Movimento Passe Livre, porém, foi só o começo. Outros grupos se manifestaram, cada qual com a sua ideologia. Com exceção daquela classe média nostálgica da ditadura, intolerante e preconceituosa, acredito que os grupos que foram às ruas deram um belo exemplo de cidadania.

Há décadas o Brasil vem sofrendo grandes mudanças. Quais as principais transformações sociais ocorridas no século XXI que podemos enxergar como fundamentais para a estruturação da sociedade brasileira hoje?

Christa Berger –  Já não podemos isolar fenômenos como próprios apenas de um país. No mundo globalizado ou pós-capitalista, a principal transformação é propiciada pela tecnologia. A instantaneidade, a rapidez, a circulação ininterrupta de informações altera nossa percepção da vida e posição frente aos demais. A exposição da vida privada, oportunizada pela internet é, para mim, a principal transformação do ainda incipiente século XXI.

Fernando Evangelista – São muitas e acho que essa pergunta renderia– se eu estivesse preparado para respondê-la – uma dissertação de mestrado. Como não me sinto preparado, foco em apenas um ponto: a questão racial. Somos um país racista, injusto, violento. Como lembrou o competentíssimo jornalista Celso Vicenzi, em artigo publicado no blog Nota de Rodapé, “cerca de 55 mil pessoas são assassinadas anualmente no Brasil. A maioria, 39 mil, são negros”. Em janeiro deste ano, o sociólogo e antropólogo Luiz Eduardo Soares concedeu uma entrevista à cronista Junia Puglia, também do Nota de Rodapé. Transcrevo o que ele disse: “Pesquisa do IPEA, concluída no início da década passada, mostrou que um jovem branco de 18 anos tinha, em média, mais 2,3 anos de escolaridade do que um jovem negro, da mesma idade. Demonstrou ainda mais: o pai desse jovem branco, 30 anos antes, tinha mais 2,3 anos de escolaridade do que o pai do jovem negro. Além disso, comprovou que o avô desse jovem branco tinha, 60 anos antes, mais 2,4 anos de escolaridade do que o avô do jovem negro.” Luiz Eduardo destaca que o mais trágico é a permanência desta “vergonhosa desigualdade” ao longo tempo. Diz ele: “Uma permanência quase absolutamente invariável, contrastando com o verdadeiro tsunami de transformações que marcou a história brasileira no século XX”. Então, talvez mais importante do que falar sobre as transformações que já ocorreram, seja mais interessante e mais urgente falar das que precisam ocorrer. Um primeiro e pequeno passo para que esta trágica realidade comece a mudar é a política de cotas nas universidades.

Qual é o papel da comunicação nesse processo?   

Christa Berger –  A comunicação não tem um papel nesse processo. Comunicação e sociedade estão tão imbricadas que não podemos isolar a comunicação para observar seu papel na sociedade. A relação circular entre ambas faz muitos estudiosos denominarem a sociedade contemporânea de Sociedade Midiatizada ou em processo de midiatização. Nenhuma instância social pode, hoje, se constituir fora da lógica midiática. A educação, a politica e a religião nos oferecem muitos exemplos da indissociabilidade da comunicação nelas. Se um papel existe, é o papel de estar presente na constituição da estrutura de todos os rincões da sociedade.

Fernando Evangelista –   É fundamental – sem a comunicação, não existiríamos.

De que forma o jornalismo acompanhou essas transformações?    

Christa Berger – O jornalismo cobre os acontecimentos da vida cotidiana. E ao tratar da atualidade deixa rastros do que é o tempo presente. Ou seja, o jornalismo tem o poder de dizer: o mundo é assim. Às vezes, como foi no inicio das manifestações de junho de 2013, tudo era tão novo que tampouco o jornalismo soube dizer: as manifestações são isso. Foi aprendendo junto com a sociedade e no processo que passou pelo Movimento Passe Livre, Vem prás ruas, Rolezinhos e Não vai ter Copa encontrou seu lugar e tom. Os manifestantes se valeram das redes sociais para sua organização, do mesmo modo que contaram com a internet para produzir um outro relato e, assim, a pluralidade inexistente na cobertura do jornalismo hegemônico acabou acontecendo pelas muitas vozes que estão a circular nestes tempos de profundas transformações sociais que contam com a cumplicidade da tecnologia.

Fernando Evangelista – Qual jornalismo? O jornalismo independente, feito pelas mídias sociais? O jornalismo da grande mídia? São tantos “jornalismos” e ainda assim, mesmo que enquadremos em grupos, há muitas subdivisões em cada um deles. Falando de uma maneira geral da mídia gorda, entendo que ela adotou uma postura contraditória: De repente, o que sempre foi noticiado como baderna virou “dignidade cívica”, o que era visto como desrespeito à democracia se tornou um “ato histórico de cidadania” e o que era chamado de vergonha nacional passou a ser “exemplo para o mundo”. Nunca antes na história deste país, o JN fez tanta questão de afirmar que a violência, o quebra-quebra, a “baderna”, o “vandalismo” foram “patrocinados” por uma “minoria que não representa o movimento”. Antes, não era a minoria que confrontava a polícia, era o movimento, fosse qual fosse. O movimento quebrava, destruía, matava… Resumindo: ao mudar de lado, a mídia gorda ficou perdida e, portanto, perdeu ainda mais sua – já escassa – credibilidade.

Sobre o Intercom Sul 2014 (2)

Texto produzido para o portal UnisulHoje, sobre o Congresso de Ciências da Comunicação realizado na Universidade do Sul de Santa Catarina em Palhoça entre 8 e 10 de maio.

COMUNICAÇÃO: CAMPO DE LUTAS E REFLEXÕES

Quando, há cem anos, a Primeira Guerra Mundial ganhava as páginas de jornal, o campo da Comunicação já conhecia as tecnologias que mudariam profundamente as relações de tempo e espaço, tanto no contexto da produção quanto no da recepção. Até o surgimento do rádio, no início da década de 20 – portanto poucos anos depois da guerra – não era possível contar histórias no tempo presente dos acontecimentos, ainda que as ferramentas já estivessem disponíveis e sendo testadas em diferentes lugares concomitantemente. A fala, muito mais acessível que a escrita, teve a primazia de passar a descrever em “tempo real” o cotidiano de uma sociedade que se organizava paulatinamente em centros urbanos e via na industrialização um futuro promissor.

Nesse cenário, miniaturas eletrônicas ampliaram exponencialmente a circulação de informações, a consolidação da propaganda e a promoção de entretenimento. O rádio tornou-se portátil, individual e indispensável numa estrutura social organizada para a produção em série e o consumo em massa. Um modelo de negócios apoiado por investimentos em aparatos cada vez mais complexos e financiado pelo capital privado com apoio do Estado desenvolveu-se como sustentação para produtos de Comunicação ainda hoje existentes. Mas foi a fala do tempo presente ampliada por ondas sonoras que deu sentido às experiências tecnológicas de então. Sem o uso social e comercial do rádio como veículo de informação, propaganda e entretenimento o campo da Comunicação seria outro, diferente.

Estudiosos, seja no âmbito acadêmico seja no de mercado, parecem concordar que a internet tem mudado profundamente as relações de tempo e espaço na produção e na recepção.  Como o rádio nos anos 20, a rede mundial de computadores tem no uso social e na exploração de mercados os componentes para determinar os rumos de experiências distintas ao modelo que ainda vigora para os negócios num setor cada vez mais abrangente. Mas, por enquanto, a internet tem sido usada apenas para fazer convergir os outros meios existentes. Impressos e eletrônicos são agora digitais; mas mantêm as referências conceituais elementares de suas origens tecnológicas. Textos escritos para veículos impressos e peças produzidas para os eletrônicos ganharam clones digitais nos mesmos canais de mercado e numa só plataforma.

A internet também propiciou investimentos em aparatos capazes de potencializar o serviço de redes, a mobilidade nas conexões e as interfaces entre máquinas e usuários, exatamente como o rádio ao longo das primeiras décadas do século passado, guardadas as proporções. A questão é que tais investimentos não se justificam mais num único modelo de negócios. O rádio e todos os aparatos tecnológicos desenvolvidos a partir dele, até o uso social da internet, pertencem a um contexto sociocultural já transformado pela própria dinâmica do campo da Comunicação, responsável hoje por boa parte da produção de riquezas no âmbito econômico e pela articulação de estratégias no âmbito político.

Não há como negar que o campo da Comunicação transformou-se num campo de “lutas”. E as forças que impulsionam os conflitos em diferentes níveis e graus de intensidade já não são mais bipolarizadas. Ao evocar “dimensões históricas” no debate sobre processos e práticas nesse campo, o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação tem o mérito de promover neste ano uma reflexão sobre as referências simbólicas das forças e das ferramentas de luta que municiam uma sociedade já midiatizada. “Comunicação: Guerra e Paz”, em sua perspectiva temática, enuncia o quão fortemente os termos simbolizam o cenário em que vivemos.

Tanto o rádio quanto a internet tiveram duas grandes guerras como estopim e protagonizaram a seu tempo mudanças significativas no comportamento humano, suas relações e perspectivas de futuro. Não dá para dizer que a internet é um aparato tecnológico mais complexo, idealizado a partir do rádio. Mas o uso social de ambos, considerados aqui marcos importantes na definição de processos e práticas em Comunicação, nos leva a crer que, potencialmente, estão imbricados em propostas redutoras de estrutura por conta de um modelo de negócios descolado do campo de “lutas” que os constitui.

O Congresso de Ciências da Comunicação terá sua Regional Sul, o Intercom Sul 2014, na Universidade do Sul de Santa Catarina, em Palhoça, entre 8 e 10 de maio. Como em outras regionais, todas no mesmo mês, e na edição nacional, em setembro, o tema “Comunicação: Guerra e Paz” vai sintetizar o que de reflexão tem sido produzida a respeito do campo nesse contexto. Mas, o que é muito mais significativo, deve evocar os conflitos inerentes ele como campo de “lutas” cujas forças, dentro e fora dos meios acadêmicos, só se reconhecem quando explicitadas. No éter de uma fala midiatizada ou na ubiquidade das redes teleinformáticas, só se faz Comunicação quando há laços sociais. Fazer convergir diferentes pensamentos e pontos de vista é uma forma de dar à tecnologia o lugar de suporte para o fortalecimento desses laços, a partir do que entendemos por modelos de negócios e canais de mercado.

Sobre o Intercom Sul 2014 (1)

Breves reflexões sobre imprensa e jornalismo, a partir de uma pequena entrevista feita pela estudante Thaís Teixeira, da Universidade do Sul de Santa Catarina. As perguntas foram formuladas antes do Congresso de Ciências da Comunicação, Regional Sul, realizado entre 8 e 10 de maio na unidade Pedra Branca em Palhoça.

 

1)  O tema que o Intercom Sul traz esse ano é Guerra e Paz. Entre os diversos assuntos que permeiam essa temática, com certeza as manifestações que tiveram no Brasil em 2013 e a cobertura realizada pela mídia estão em pauta. Como você avalia o papel da imprensa nessas manifestações?

A primeira questão a ser analisada diz respeito à credibilidade dos órgãos de imprensa. Enquanto instituição, a Imprensa nasceu num contexto de expansão econômica, forte processo de industrialização e urbanização e efervescência quanto aos processos de representatividade política numa sociedade que passou a valorizar a ciência, a tecnologia e o progresso. O Estado tinha presença efetiva nas decisões quanto ao desenvolvimento econômico, social, cultural, enfim, tinha papel preponderante quanto a garantias de um futuro. Num ambiente assim, a Imprensa marcou posição num lugar de mediação entre as esferas de poder e a sociedade; passou a ter o papel de fiscalizar os poderes constituídos com o respaldo da sociedade. A legitimação do Jornalismo enquanto profissão tem a ver com esse cenário.

Hoje, como já enunciaram Zygmunt Bauman e Edgar Morin, por exemplo, estamos diante de um tempo em que se reconhece o “fim do futuro”. Ou um futuro a crédito, como que hipotecado para garantir ações no presente. Nesse cenário, as instituições perderam a confiança porque não têm garantias a oferecer no longo prazo. Então, a imprensa, como instituição, perdeu a capacidade de mediação, no sentido de não ser mais por intermédio dela exclusivamente que as pessoas se informam ou têm contato com algo que mereça o debate público. Aliás, diante das pressões políticas e econômicas, a instituição Imprensa tem provocado muito mais constrangimentos à livre circulação de informações do que o contrário. E esse “descompromisso”, associado à mercantilização escancarada do que ela produz, tem gerado descrença ou, no mínimo, desconfiança. A informação tem sido tratada mais como um bem para consumo do que para o debate público.

Durante as manifestações no Brasil, sobretudo as de junho do ano passado, a instituição Imprensa assumiu de maneira arrogante o “descompromisso” com a contextualização dos eventos organizados no país inteiro. Acostumada a análises fáceis e para consumo, só depois de um tempo a chamada grande mídia, parte importante e majoritária do que se convencionou chamar de Imprensa, assumiu a postura reativa de reconhecer o movimento, ainda que sem rosto, sem líderes e sem objetivos aparentes. Digo que foi reativa porque no cotidiano da instituição Imprensa, o uso de mídias sociais e o monitoramento do “humor coletivo” através de suas redes é prática comum. E, ao que parece, os argumentos e análises feitas pela “grande mídia” quanto às manifestações e seus impactos parecem ter sido influenciados pela “nova esfera da opinião pública”, a dos posts, twits e afins.

Um segundo aspecto importante diz respeito ao olhar demasiadamente distanciado da instituição Imprensa para os conflitos decorrentes das manifestações. Muito pela dificuldade de inserção nos movimentos, no sentido de que eles (os movimentos) não reconhecem o trabalho da instituição Imprensa por conta das interpretações, via de regra, descoladas do que as ruas efetivamente expressam. Um exemplo: os atos de “vandalismo” podem ser condenáveis, mas não podem ser dissociados da ideia de manifestação. Depredar os símbolos que representam os responsáveis por aquilo contra o qual se luta talvez seja a forma mais radical de manifestação. Mas essa prática faz com que os manifestantes ganhem na instituição Imprensa outra classificação. No entanto, as mesmas práticas em outros lugares do planeta são tratadas com pesos e medidas diferentes pelos mesmos atores que interpretam a vida social brasileira.

Esse distanciamento, não apenas no âmbito discursivo, gerou contradições dentro das próprias coberturas planejadas pela instituição Imprensa. E, portanto, parece haver um movimento cada vez mais forte por alternativas que se contraponham ao discurso hegemônico da instituição Imprensa, que se contraponham à conservação de um certo modelo de negócios e a certas relações de produção institucionalizados pela Imprensa. Diria que, como relação de poder, a instituição Imprensa foi afetada pelas mesmas razões que deram a ela o crédito de mediadora social. Quero dizer, o compromisso de fazer eclodir informações relevantes e de caráter público parece possível quando, de dentro, a instituição Imprensa implode por conta das próprias contradições. Antes, essas contradições eram assunto exclusivo para os já iniciados na arte de produzir conteúdos informativos. Hoje, contudo, estão inscritas também no debate público, como elementos importantes para esclarecer certos aspectos que inibem o livre fluxo de informações a partir da própria Imprensa enquanto instituição. Ou seja, o preceito básico de qualquer democracia e que sustenta ainda a Imprensa como instituição indispensável para a sociedade é que está em xeque: a grande mídia tem lugar reconhecido, posicionamentos identificados; não é mais vista como distante dos acontecimentos que noticia, ainda que continue fazendo um esforço gigantesco para parecer distante.

2) As mídias alternativas e o “mídiativismo” ganharam muita notoriedade no último ano e principalmente nos últimos meses, sempre colocando em xeque a grande mídia. Seria esse o momento de repensar o jornalismo?

Mídias alternativas sempre existiram, seja no sentido do posicionamento firmado enquanto produto, seja quanto aos conteúdos valorizados ou suportes de distribuição utilizados. E a ideia de ativismo midiático também não é nova. Não sei se estamos mesmo presenciando uma outra perspectiva de Comunicação ou percebendo velhos paradigmas materializados pelo “avanço” das tecnologias. O que parece diferente é a formação das pessoas para lidar com esses fenômenos.

As novas gerações parecem mais espertas quanto às ficções que o discurso midiatizado produz; parecem menos ligadas ao que chamamos de política (e que perdeu mesmo muito do encanto diante do desrespeito aos coletivos humanos); parecem mais motivadas por questões de afinidade, não por projetos-modelo. O que nos cerca hoje e motiva as novas gerações não tem perspectiva de durabilidade muito longa; nem mesmo os recursos naturais. Essas novas gerações se informam a partir de suas redes de relacionamento, sejam presenciais ou não. E essas redes se formam no convívio diário com ferramentas impensadas para as gerações “formadas” no cenário em que a instituição Imprensa se consolidou.

Pode-se criticar esse perfil, mas a crítica já evidencia que é um perfil característico e que, portanto, precisa ser levado em consideração. Para repensar o Jornalismo é preciso avaliar os níveis de censura (hoje muito mais sutis) aos quais o livre fluxo de informações está sujeito; sem avaliar as perspectivas de suporte para a distribuição do que se produz enquanto conteúdo informativo e sem avaliar o quanto as linhas de produção e seus métodos afetam o que se entende por informação útil e de qualidade; sem avaliar o quanto de informação circula e que merece contextualização; sem avaliar o volume de dados armazenados e as perspectivas de acesso a eles; sem avaliar o quanto é preciso investir na apropriação dos recursos tecnológicos, hoje muito mais acessíveis; sem avaliar o quanto o consumo de informações tem transformado em notícia o que é entretenimento e vice-versa; sem avaliar o cenário em que os “prossumidores” (termo cunhado por Alvin Toffler nos anos 70 para um híbrido de produtores e consumidores em gestação na época) assumem um papel até pouco tempo exclusivo de Jornalistas enquanto produtores culturais.

Sim, é momento de repensar o Jornalismo. É momento de repensar a instituição Imprensa como espaço de atuação profissional; é momento de repensar seus produtos para consumo fácil; é momento de repensar o jornalista como mediador (de quê?); é momento de repensar a economia do Jornalismo e as políticas de Comunicação. É momento de pensar em alternativas, não para substituir um modelo de negócios que não sustenta mais os veículos que dão suporte à produção jornalística, mas para criar “canais de mercado” diversificados. É momento de repensar o Jornalismo como arte de descrever o tempo em que vivemos com histórias que humanizem nossa visão de mundo; como exercício intelectual e sensível inscrito no nosso tempo.

3) De que forma a comunicação influencia nas transformações sociais que estamos vendo acontecer neste século?

Enquanto fenômeno humano, a Comunicação potencializa formas diversificadas de percepção da realidade. Temos valorizado, ainda e demasiadamente, formas homogêneas e hegemônicas de percepção do que chamamos de realidade. Siegfried Zielinski tem estudos sobre “arqueologia da mídia” mostrando que as decisões de caráter hegemônico eliminam todo um rol de “possíveis disponíveis” cuja existência se apaga por conta das escolhas tratadas como modelo a ser seguido.

Quando o rádio surgiu como artefato eletrônico alternativo ao fonógrafo e ao telefone, ele trouxe uma referência inteiramente nova para o convívio humano: o presente social compartilhado coletivamente e à distância. Esse foi o aspecto mais impactante no modo de vida das passoas na década de 20, pode-se dizer. Até então, o tempo era o da escrita, lento, profundo e exclusivo dos letrados. O rádio, ou o som em “tempo real” sintonizado coletivamente, no tempo presente de cada indivíduo mas compartilhado com outros indivíduos desconhecidos e distantes entre si, deu outra noção de espaço e de tempo às pessoas. Industrializado e apropriado por setores políticos e econômicos da sociedade, virou mais um veículo de uso “restrito” e limitado por suas características “superficiais”. Na época, qualquer analfabeto que tivesse voz teria a força de um letrado.

A comunicação influencia nas transformações sociais de muitas formas. Mas ainda privilegiamos o discurso através dos meios como principal elemento transformador. Contudo, esses meios podem assumir formas diferentes quando associados a outras possibilidades de uso criativo. Com a abundância de ferramentas hoje existentes (para produzir e veicular o que quer que seja), ainda nos limitamos a usar seus recursos para reproduzir modelos.

Reportar-se à reportagem é reportar o repórter a um outro Jornalismo

Escrito há três anos, o texto que segue ressurge como um desabafo. Sem repórteres o Jornalismo perde seu principal ingrediente: a atualidade. Não a atualidade dos “fatos novos”, das “novidades” em si mesmas. O ingrediente essencial à atividade jornalística emerge da capacidade de interpretação sensível do cotidiano; do movimento solidário na direção das diferentes perspectivas que vestem a verdade em sua dimensão relativa; do reportar que alcance o imperceptível e assuma a causa de não deixar desaparecer o extraordinário ordinário da vida, como diz Eliane Brum. Ainda há repórteres; portanto, ainda há Jornalismo. A reportagem não é um gênero; é a especialidade primeira a partir da qual todas as variáveis do Jornalismo se materializam, sejam técnicas, conceituais, metodológicas…

Dezesseis de fevereiro é dia do repórter.

Nessa figura indispensável ao Jornalismo existe um dilema que sintetiza a crise da profissão. Repórter é geralmente visto como mediador social enquanto observador do cotidiano e mediador simbólico enquanto produtor de sentidos. A concepção o qualifica como mero espectador dos fatos. Alguém privilegiado, levado a ser “testemunha ocular da história de seu tempo”, nas palavras de Clovis Rossi.

A ideia é em si controversa, mas traz uma discussão interessante. Ser testemunha ocular significa acompanhar de perto o rumo dos acontecimentos; estar presente na eventualidade das relações consideradas jornalisticamente relevantes. Essa presencialidade não nos é possível; quase nunca. No Jornalismo, a história de nosso tempo possível de ser ocularmente testemunhada é a eleita a priori como importante; pautada, antecipada em seus elementos previsíveis. Essa história é mobilizadora de “olhares” homogeneizados. As versões sobre os acontecimentos, por mais divergentes que sejam, levam em conta um único “mirante”, um único “platô” de onde todos os “olhares” disputam o privilégio de observar melhor.

É possível interpretar a fala de Clovis Rossi – ainda que não creia ser esse o sentido dado a ela – por um viés mais metafórico. Por “testemunha ocular” pode-se entender também quem tem a preocupação rigorosa de reportar-se, no tempo e no espaço, aos acontecimentos que não pôde presenciar; de investigar com todo o cuidado e paciência os elementos que constituem uma versão possível, verossímil dos acontecimentos. Indo além, estabelecer conexões espaciotemporais entre o seu movimento de apuração e as versões plausíveis sobre o que se está apurando.

O termo reportagem traz uma dualidade redutora que é própria da conflituosa atividade jornalística. Quem delimita o exercício profissional a habilidades meramente retóricas, às linguagens, julga indispensável a descrição fria dos acontecimentos; um distanciamento marcado pela terceira pessoa como recurso textual. Os fatos impõem ao Jornalismo a ausência de juízos de valor no texto, no ato de reportá-los. Como se o que se diz sobre objetos e fenômenos não os valorasse de algum modo.

É no ato de reportar-se, de mergulhar num contexto específico, de dialogar com os possíveis disponíveis em termos de fontes e cenários observáveis que reside o sentido de ser repórter. Há uma difícil escolha por protagonismo nesse ato. Tecer os sentidos contemporâneos num amplo contexto democrático, reconstituir as histórias de vida num cenário das diferenças culturais que assinam nas múltiplas oraturas e cruzar as carências sociais com o gesto generoso dos pesquisadores e dos artesãos de um outro futuro despertam uma sensibilidade altamente complexa e fina com o presente (Cremilda Medina em A Arte de Tecer o Presente: Narrativa e Cotidiano, publicado pela Summus em 2003).

Como mero espectador da agenda pautada pela mediação do previsível, portanto testemunha ocular da retórica hegemônica sobre a história, o repórter perde o que essencialmente o constitui. Lugar de repórter, como diz Ricardo Kotscho, é na rua. Não para ser apenas “testemunha ocular” de seu tempo, mas, e sobretudo, para reportar-se aos contextos de onde subjazem os insumos que qualificam nossa presença no cotidiano.

O professor e o Facebook

No que você está pensando?

— No professor…

Hummm… teve comemoração ao teu dia, não?

— Sim, sim. Mas não é por isso. É porque professo minhas angústias a mim mesmo. Interessante como esse estado de espírito nos dá anima.

O quê?

— Todo professor tem uma alma errante… como se estivesse deslocado permanentemente de si mesmo. Não existe lugar confortável nem consolo. Mas não é mal estar… é justamente o contrário. Entendes?

Sinceramente? Não!

— Bem, não é um estado de espírito que possa ser compreendido por transposição didática. Aliás, não há didática capaz de transpor o que vive um professor. É uma experiência que não cabe nas horas de preparação somadas às de aula, tampouco nos espaços formais que os contratos de trabalho padronizam.

Sei. Mas não é o que um bom profissional tem de fazer? Saber seu ofício?

— Se reduzirmos a atuação de professor ao campo profissional, sim. Mas ensinar não é um ofício… quem ensina se descobre… se descobre de verdades, de certezas, de conceitos prévios… se descobre pequeno como qualquer aprendiz.

Mas você não acha…

— É por isso que professo minhas angústias a mim mesmo. Com esse ato solitário eu me renovo. Tenho visto manifestações de que o professor é quem tem a capacidade de transformar o mundo, quem tem a primazia de ser valorizado como máxima autoridade em países ditos desenvolvidos, quem deveria ser respeitado acima de todas as profissões… todas soam como palavras de ordem de um movimento que ora defende salários mais dignos, ora defende políticas públicas mais pertinentes para a educação, ora defende a mudança da classe política…

E a educação não é tudo?

— Não! O professor instrui, contribui para a construção de valores, fomenta o estímulo à curiosidade… mas não é quem tem a responsabilidade de educar. Não sozinho. O termo educação tem sido usado arbitrariamente pra justificar argumentos em todas as direções. E o professor é a figura-símbolo dessas justificativas.

Você está desmerecendo uma classe de grande importância para o mundo de hoje.

— Pode ser… mas um professor que reproduz ideários, que segue cartilhas, que não pensa por si mesmo naturaliza a capacidade de transformação pelo conteúdo do qual é responsável numa grade ou num fluxo curricular. É como se o ato de transformar fosse aprender a ocupar os espaços já designados pelo Estado, pelo mercado… como se transformar fosse oferecer condições de competitividade aos estudantes…

— Mas não é isso que a sociedade espera? Não é pra isso que existe a escola?

— O que posso dizer… professo minhas angústias a mim mesmo para me tornar educador. Minha única capacidade enquanto professor é educar a mim mesmo para transformar minhas práticas, minhas formas de perceber o que me cerca, minhas características pessoais, meus valores… Não professo minhas angústias em púlpitos… Professo assim, silenciosamente. É no silêncio que professo. E quanto mais professo mais educo a mim mesmo… e mais condições de educar construo. Quanto mais professo, silenciosamente a mim mesmo, mais me distancio do lugar de professor que ocupo e mais me aproximo do educador que potencialmente pode transformar.

… !!!

Novas diretrizes, velhos paradigmas

Texto produzido originalmente para o blog ESTOPIM, produzido por futuros jornalistas que estudam na Unisul em 25 de setembro de 2013

Homologadas pelo Ministério da Educação agora, em 12 de setembro, as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Jornalismo valorizam as especificidades da atividade profissional no campo da Comunicação. A rigor, o parecer que as sustenta (CNE/CES 39/2013) muda em muito pouca coisa o que foi sugerido pela comissão de especialistas num relatório encomendado pelo próprio MEC e entregue em 2009. Há quem reconheça o amplo debate estabelecido ao longo de quatro longos anos envolvendo os diversos setores da esfera acadêmica e jornalística. Mas as decisões levam em conta a voz uníssona das escolas públicas vinculadas às instituições federais de ensino, às quais estão associadas quase todas as pesquisas que sustentam os argumentos do relatório e do parecer.

De qualquer modo, as novas diretrizes põem em questão um debate para além dos currículos decorrentes de suas orientações. A Comunicação Social não é mais entendida como o campo de saberes sobre o qual estruturam-se os conhecimentos em Jornalismo. E esse é um debate antigo. Na relação de forças que historicamente constituiu as referências curriculares no Brasil, o Jornalismo, como precursor dos estudos acadêmicos, sempre esteve associado a outras áreas. Nasceu com as Humanidades, fundamentou-se nas Ciências Sociais Aplicadas e a formação superior decretada em 1969 fixou o exercício profissional como habilitação da Comunicação Social. Até a homologação das novas diretrizes.

Há um ano consolidamos na Unisul a reforma curricular para os cursos de Comunicação Social. Obviamente, o corpo docente, a despeito de obrigar-se a seguir as diretrizes em vigência no momento da reformulação, acompanhou a proposição dos especialistas e os debates promovidos em função dela. Percebe-se que a autonomia do Jornalismo em relação à Comunicação Social evidencia uma preocupação bem pragmática quanto aos fluxos curriculares em andamento nas instituições privadas: há a alegação de que a formação específica vê-se reduzida diante do compartilhamento de disciplinas genéricas, que constituem uma espécie de eixo comum às demais habilitações. A preocupação procede, quando não há argumentos pedagógicos que sustentem esse tipo de proposição. Na prática, generaliza-se a ideia de que os conteúdos comuns às diferentes habilitações têm alicerce na mercantilização do ensino superior.

Além de segregadora, essa é uma concepção academicista calcada na formação excessivamente conteudista que, infelizmente, concentra o espectro de possibilidades na organização do processo educacional brasileiro de nível superior. Em outras palavras, instituições que precisam equilibrar fluxo curricular e otimização de estrutura nas propostas pedagógicas, de saída, são vistas como nocivas ao processo de formação. É como se as escolas subsidiadas pelo Estado fossem exemplo de organização acadêmico-pedagógica única e exclusivamente porque não precisam pôr em primeiro plano o custo-benefício de suas propostas. Por ora, mudemos a prosa para o que nos interessa.

Na Unisul organizamos o recente currículo de Jornalismo por ciclos de estudo. E o que significa isso? Nossa proposta curricular busca concentrar atividades para fortalecer a formação específica sem o isolamento da atividade jornalística em relação ao seu campo de atuação. Os ciclos de estudo propõem o exercício das técnicas, das narrativas e gêneros, das relações de produção e das experimentações tecnológicas, conceituais e de liguagem para além dos suportes midiáticos e das estruturas mercadológicas formais. Como resultado, as experiências concretizadas em cada ciclo constituem um portfólio para o curso e para os estudantes. A ideia é valorizar o campo de atuação e suas potencialidades. O que inclui o mercado mas não reduz-se a ele.

Há ciclos em que futuros jornalistas e publicitários estarão juntos, mas para estudar o campo em que atuam nas suas especificidades. Nesse sentido, as experiências a serem propostas dizem respeito ao diálogo entre duas áreas profissionais específicas, de formação diferenciada e estruturantes nas relações entre as mídias e a sociedade. Não há, portanto, o uso de disciplinas comuns para justificar o compartilhamento de habilitações distintas pelo viés do conteúdo. A nova proposta curricular explora, isso sim, o campo da comunicação nos limites de cada profissão para evidenciar o que as diferencia e como se relacionam; ambiente, aliás, propício para a consolidação de valores éticos, estéticos, políticos e culturais inscritos na mediação entre informação e publicidade, entre o interesse público e a privatização do que é relevante para a sociedade.

As diretrizes recém homologadas para a formação em Jornalismo podem ter promovido avanços quanto a determinados aspectos para o exercício profissional. Mas a excessiva ênfase na autonomia curricular em relação às habilitações da Comunicação Social pode ter entorpecido os sentidos no que diz respeito ao lugar reservado à atividade num futuro relativamente próximo. Essa autonomia já estava anunciada desde 2006, quando o Cinema também deixou de ser habilitação da Comunicação Social. O próprio MEC, em 2010, publicou documento complementar às diretrizes de todos os cursos de graduação dando conta de que não reconhecia mais habilitações, mas linhas de formação. É uma questão de tempo, portanto, a reformulação de todas as diretrizes com esta característica.

Preocupações com as conveniências econômicas e as escolhas políticas passam distante dos pressupostos que embasam as novas diretrizes. Entre as economias de mercado e as sociedades democráticas, o Jornalismo, vinculado ou não à Comunicação Social, precisa inserir no contexto de sua própria instituição as relações de produção que o viabilizam. Num país em que a concentração de poder determina o campo da comunicação, o Jornalismo que nele atua não pode dispensar o exercício de refletir sobre suas possibilidades de materializar transformações sociais a partir de escolhas políticas que escapam aos empreendimentos sedimentados na indústria dos mass media. Para isso, a atividade precisa por-se em interface com as outras atividades do próprio campo. Tendo ou não autonomia nas propostas de formação.